Intimacy-Mind Intimidade-Mente

Paulo Alexandre
e Castro

Thoughts / Pensamentos

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 (Des)Aforismos

«O acaso da vida é maravilhoso. Mas mais maravilhoso é viver a aventura da vida que não se repete»

«A intimidadade é a nossa raíz e o nosso tronco. É a nossa realidade. Também é nosso o perigo de perdermos ambas»

Pode acontecer que o problema mente-corpo não o seja de facto; na verdade, o problema foi criar um problema para que este passasse a existir como problema. De resto, muitos dos enigmáticos problemas da filosofia tem a mesma génese»

«A filosofia da mente é como uma parábola: abusa de metáforas e a 'moral' nem sempre é clara»

«A europa é um rendilhado de contradições económicas, sociais, políticas, geográficas, e poder-se-ia mesmo dizer que não existe europa! Mas não deixa de ser curioso que nessa aparente contradição, através da cultura, nasça a sua unidade»

«Magritte sabia que a traição das imagens é a mesma das palavras: nada garantem acerca do real»

«O humor é o reflexo da mente harmoniosa do homem com o mundo que o cerca»

«Ainda me espanto com os medíocres: quanto mais julgam saber, mais ignorantes se revelam!»

«O homem medíocre não pode saber que é medíocre, tanto mais porque ele é medíocre e tanto mais porque geralmente está investido de poder e rodeado de medíocres»

«Uma estética sem ética é cega, uma ética sem estética não existe» 

«Gostaria de poder dizer que a humanidade que há no homem está para além do bem e do mal; mas o homem só é homem porque tem em si o bem e o mal»

«O que mais me fascina na mente humana é o conhecido; do desconhecido resta-me apenas a filosofia para consolação»  

«O criador distingue-se do homem normal não por sonhar mais ou melhor, mas pela consistência e materialização que incute nos seus sonhos» 

«... é por isso o verdadeiro criminoso! Só o criador re-inventa destruindo, valores e imagens, perspectivas, horizontes, mesmo os da própria criação»

«Como poderíamos compreender a intimidade, a obscenidade, o erotismo, a sexualidade, se fôssemos completamente inocentes?»

«A decisão é um factum trágico do humano, quer se esteja só ou em multidão e disto não podem haver dúvidas: sozinhos devora-nos, em multidão ignora-nos»

«Quase um paradoxo inevitável: a unicidade do indivíduo só ganha sentido num quadro de relações com Outro»

«O homem que vive sob o efeito da possessão acredita que ter é melhor que ser; eis a razão pela qual não se vê um homem possessivo feliz»

«Só parece ter havido um único verdadeiro ateu, aquele que nunca se invocou si mesmo: Deus»

«Amar é a um só tempo, a maior traição de si e a maior doacção de si»                    

«Não é possível vivermos todas as coisas que temos dentro de nós; se tal fosse possível, seriamos deuses, e as coisas que teriamos dentro de nós seriam sempre criações ou estados de coisas do mundo»

«O belo associa-se á esperança, como dizia Stendhal, e a arte surge como uma promessa de felicidade à posteriori. Confundem-se assim os horizontes estéticos e éticos: juízos de fundo kantiano sob tautologias wittgenstainianas»

«O importante não é saber que 2+2=4, mas saber como pode ser que 2+2=4  e saber o que fazer desse conhecimento»

«O homem que renuncia ao pensamento metafísico está apenas a adiar o confronto inevitável com o pensamento da transcendência, que sempre acontece na vida em que ele existe»

«O erro da filosofia contemporânea foi ter atribuído à consciência aquilo que caracteriza a noção auto-representacional do Eu: a sua transparência»

«A fenomenologia no fundo tem ignorado o sujeito, ao escudar-se nas representações transcendentais da subjectividade e fazendo com que o homem surja envolto numa nebulina ontológica de estruturas  fictícias»

«A inveja é como os ácaros: sabemos que existe e que nos prejudica, mas não sabemos ao certo onde ela está»

«O consumo é o ópio do capitalismo. O capital é o ópio da consumismo. Eis como tudo se resume circularmente na nova ordem global»

«A arte acontece, o pensamento acontece, e pensar sobre isto é tão inútil quanto proveitoso»

«A arte abstracta revela mais do interior do homem do que qualquer outro tipo de arte; o visível não passa no fundo de uma perspectiva sobre a invisibilidade»

«A realidade  pode não ser aquilo que é e pode ser aquilo que não é. Hoje, tal como ontem as próteses e os mediuns de percepção do real moldam-nos o pensamento»

«Com o Homo Consumericus pensou chegar-se ao fim de um longo processo evolutivo, mas apenas se iniciou o principio da derrocada da humanidade do homem»

«Se toda a gente gostasse de amarelo, o mundo seria bem mais cinzento»

«Sócrates inaugurou um paradigma, Nietzsche tentou destruí-lo com um outro; hoje nao subsiste nem um nem outro, só vazio deixado pela pós-modernidade»

«Wittgenstein disse-nos que a filosofia seria como uma escada que deveriamos subir, mas nada referiu quanto ao número de degraus»

«Há sempre um momento na vida do homem em que o solipsismo ganha sentido: o fantasma da solidão percorre os últimos minutos da vida como se fosse toda a verdade da Ek-sistência»

«O eterno retorno é sempre aqui e agora - o tempo é uma espiral que dialecticamente se mantêm num eterno movimento presente»


... Talvez um vestígio de Poesia ao entardecer...

 

trazias um livro que te ocupava a mão,

uma mala a condizer contigo,

um olhar impenetrável e sério,

olhava uma, duas, três vezes

e reservava a minha timidez .

um dia poderia abordar-te

de forma nervosa e disparatada,

agarrar-te na mão ansiosa,

segredar-te um bom dia tremulo,

pedir-te desculpa pelo que não foi.

 

quando o amor acontece é que sabemos

que os livros que nos ocupam as mãos

não chegam para nos distrair do destino

 

in Antologia da Moderna Poética Portuguesa 

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7.


acabei de chegar há pouco da tua aventura amorosa,

lugar encontro dos sons surdos e luzes turvas,
carregado de certezas certas, portanto idealistas,
trazendo nos ombros o peso dos teus impossíveis


há um cheiro de mar entre uma cruzada e outra,
e dióxido de carbono preenchendo nuvens virgens
acentuada turbulência entre sanduíches e sumos
fazendo os anjos mudos pousar as harpas douradas


acabei de chegar ao enorme aeroporto vazio
sem trazer na bagagem de mão um aceno,
apenas a vertigem das tuas palavras a ecoar
no bilhete enrolado, lembrando a espera de partir

38.

amontoam-se os cds num cestinho de vime sempre
atento à tua chegada não antecipes a chegada do
inverno com lágrimas. fumas a esperança sempre
à mesma hora e sempre à mesma hora te consomes


nunca estivemos tão longe na distância apenas se sabe
a metade da laranja amarga a confissão de deixarmos
de existir um para o outro no tempo que devia ser
nosso. ainda não perdemos esta guerra apenas


a batalha que travamos não abre fissuras mata a pouco
e pouco devia ser acompanhada de um aviso a tinta
preta letra de imprensa: sofrer por amor pode prejudicar
gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam. Fim

in Gramática do @mor Tecnológico 

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Eterno retorno

 

Tantas folhas caídas

e poças de lama

que a terra gerou,

para no fundo,

ser sempre,

a mesma

primavera.

 

in Toda a Poesia Nua/ Coisas da Morte

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O cogito não deve poder acompanhar o que quer que seja,

porque o amor não se faz de sínteses, e não suporta

sequer um tribunal de imperativos categóricos a-morais,

porque a moralidade é uma arma de arremesso mortal

e ambos sabemos que já ninguém morre na cruz.

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E se em vez de poesia e de arte,

eu te falasse da inutilidade da filosofia,

tentando com isso persuadir-te que as palavras

tem apenas a função de dizer o que se não quer,

que a gramática da criação não suporta letras,

e que os únicos sons do amor são os que o corpo manifesta

e que a alma não consegue desaprovar.

Para que servem tantas – inúteis - filosofias

senão para preencher prateleiras ávidas de saber?

Se ao menos a filosofia fosse descartável,

poderíamos tirar algum prazer disso,

e depois ansiarmos pela próxima vez,

como se tivéssemos degustado um néctar dos deuses

ou vislumbrado uma verdade inabalável.

 

in Loucura Azul

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Para que me servem as formas puras da intuição,

se o que me interessa é encontrar-te no momento

das fantasias em que não há amanhã, e o suspiro do futuro

está ainda retido na enunciação

do verbo que é sempre criador.

Disseste-me que querias cozer o espaço

com a velha máquina singer da tua avó,

fazendo uma manta de retalhos

com tempos passados e futuros,

deixando franjas intermináveis pendentes pela eternidade.

Do tempo presente farias um lençol sem princípio nem fim,

em que rebolaríamos numa infinidade de movimentos,

e tudo o mais seria desnecessário e fútil,

como os canhenhos da escola primária,

em que esboçámos os primeiros traços de uma tragédia.

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Nesse espaço em que acordávamos inocentes,

num sorriso inocente que não parecia ser nosso,

provocando o esquecimento do pecado original,

adiando a condenação metafísica do deus das moscas,

realizávamos uma outra aurora sem despertador digital:

fazia-se luz na escuridão solitária dos dias porvir...

Esquecemo-nos do dia em que acordámos inocentes,

com sorrisos inocentes que não pareciam ser nossos,

e lançámos em livro de publicação reduzida a dois exemplares

máximas hedonistas para uma vida sem sequelas

declarando imperativa universalidade:

«vive o dia de hoje como se fosse o último dia

em que acordamos inocentes».